A importância dos roteiros de estudo

 

Os professores sabem que o processo de aprendizagem do aluno vai muito além da hora-aula recebida na escola. Fora dali, por meio da “lição de casa”, cada conceito é retrabalhado em atividades, exercícios e pesquisas que visam o entendimento do conhecimento transmitido. No Curso de Formação pedagógica do projeto Klabin Semeando Educação, os professores também passam por isso. Além do conteúdo recebido diretamente dos formadores, eles desenvolvem habilidades e competências por meio de pesquisa orientada. É nesse momento que surgem os chamados “roteiros de estudo”.

“Os roteiros de estudo servem para orientar os professores no estudo autônomo e compõem o atual plano de formação dos professores do Ensino Fundamental – Anos Iniciais das redes municipais de ensino de Imbaú, Ortigueira e Telêmaco Borba”, explica a pedagoga Patrícia Cândido, consultora da Interação Urbana e coordenadora técnica do Semeando Educação. No modo de curso presencial, não existe roteiro de estudos, mas sim tarefas aplicadas pelo professor aos alunos. Além disso, a formação possui a devolutiva das tarefas (como as professoras fazem as atividades com as crianças). Neste momento de distanciamento social, que exige do professor-educando maior independência na busca de sua evolução, os roteiros de estudo ganharam importância.

Modos presencial, síncrono e assíncrono

Na área de ensino, uma das consequências da pandemia de Covid-19 foi o fortalecimento do uso da tecnologia para o ensino a distância. Na impossibilidade de encontros presenciais, a formação dos professores vem sendo mediada por plataformas virtuais (no caso, o Google Meet) e por ações que podem ser síncronas ou assíncronas, termos cunhados no EAD (ensino a distância).

Resumidamente, o modo síncrono refere-se a um encontro feito por meio de uma ferramenta digital em que todos os envolvidos estão presentes no mesmo horário. Difere do modo presencial porque não há contato físico entre os participantes. Além do aspecto espacial, no presencial destacam-se certas dinâmicas impraticáveis na comunicação on-line.

Já o modo assíncrono é definido como aquele em que não há o encontro direto (nem virtual nem presencial) entre o formador e o professor-educando, cabendo a este desenvolver seu aprendizado de forma autônoma, embora orientado pelo formador. É neste modo (assíncrono) que entra o roteiro de estudo. Patrícia explica que “o momento assíncrono envolve leitura, assistir vídeos e realizar uma série de atividades que não precisam ser feitas no modo síncrono”, já que este é um momento de debate e discussão a partir daquilo que o roteiro direcionou.

Responsável pela formação em Matemática do projeto e também pela elaboração dos roteiros de estudo, a professora Lara Cavalheiro acrescenta: “Tentamos nortear ao máximo o estudo dos professores, não só pensar no recurso que fará sentido a eles, como um vídeo, um jogo ou uma produção das crianças, mas também dar foco de leitura, de modo a despertar neles algumas perguntas que eles terão que responder a seus alunos”. Segundo Lara, “o roteiro de estudo é tanto uma forma de o professor-educando se preparar para o momento síncrono como para ele avançar no que foi discutido no momento síncrono anterior”.

Aprendizagem dinâmica

A base para a elaboração dos roteiros é o próprio Caderno de Formação, que por sua vez corresponde a um módulo de formação, estimado em 40 horas de estudo. Essas 40 horas podem se dar no modo presencial (em um contexto sem pandemia), no síncrono e no assíncrono. Na situação atual, porém, só existem as duas últimas alternativas. Considerando que o tempo de concentração e envolvimento das pessoas é de no máximo 2 horas no modo síncrono, o roteiro de estudo utilizado no modo assíncrono ajuda muito a otimizar o período da formação, dando aos professores uma perspectiva de estudo autônomo de 3 a 4 horas por roteiro.

O método de formação – aliado à dificuldade do tema de estudo (a Matemática) – tem criado um movimento interessante entre os professores participantes da formação. Em Telêmaco Borba, por exemplo, as professoras têm se reunido via Meet para colocar, umas às outras, suas dúvidas sobre as questões apresentadas no roteiro, promovendo um novo momento de estudo e debate. Com isso, amplia-se ainda mais o tempo dedicado à formação e o roteiro serve de modelo ao que se pode fazer no ensino remoto dos próprios alunos.

Patrícia destaca que essa interação é muito positiva, sobretudo pela dificuldade que os professores enfrentam no ensino da matemática. “Raramente os cursos de pedagogia do Brasil abordam com o detalhamento necessário o ensino das frações e dos decimais nos anos iniciais do Ensino Fundamental. Sabemos que esse é um conteúdo desconhecido por eles. Por isso, além de tudo, temos uma tarefa séria, que é formar o professor matematicamente”.

A partir dessa necessidade, os roteiros foram aprofundados para trazer mais exercícios do que o Caderno de Formação oferece. Assim, eles ajudam a direcionar a formação para o conteúdo matemático e para o método de ensino. “As duas coisas estão sendo cuidadas neste formato síncrono e assíncrono com apoio do roteiro. Conseguimos cercar as duas frentes. As professoras estudam matemática com a formadora, entendem como fazer e depois podem usar isso com seus alunos”, afirma a coordenadora.

Compromisso com o aprendizado

Nos eventos síncronos, professores dos três municípios se reúnem quinzenalmente, durante duas horas, com a professora Lara Cavalheiro, que orienta dois grupos de trabalho por dia. Durante a dinâmica, cada grupo divide-se em dois subgrupos e ocupa uma sala do Meet para realizar as tarefas propostas em prazos definidos. É o mesmo espírito do formato presencial, com seus pequenos grupos de discussão, sempre monitorados pela formadora. Esses subgrupos trabalham e depois retornam para a sala principal da plataforma para discussão. “Ninguém fica sem trabalhar. Por isso, o roteiro é muito importante. Quem não faz o roteiro, participa e contribui muito menos. Mas somos exigentes. Tem que estudar de verdade”, explica Patrícia.

Tão importante quanto o aprendizado em si é o vínculo e a dedicação dos professores com a formação. Os professores se esforçam em participar dos encontros, superar dificuldades técnicas (como acesso limitado à internet), compartilhar opiniões e perguntar sobre aspectos que desconhecem. “O roteiro está desencadeando essa interação, ainda que a distância. Isso é bem interessante”, afirma Lara.

Em 2021, o projeto Klabin Semeando Educação deverá contar com as três formas: presencial (tempo e espaço comum), síncrono (tempo comum, mas sem o espaço comum) e assíncrono (tudo não comum). O arranjo é resultado da pandemia, que já se estende por seis meses. “Já fazíamos isso, mas não com tanta frequência. Devido à necessidade de distanciamento, transformamos uma formação 100% presencial em uma formação síncrona e assíncrona. O sucesso da formação nestes moldes permitiu que se desenvolvesse um modelo misto”, explica Patrícia Cândido.