Você é o/a cara

Como o curso de formação de gestor, apoiado na prática participativa, ajuda no aperfeiçoamento profissional, valoriza o trabalho em rede e transforma a realidade local

Qual é o perfil necessário para ser um gestor ou uma gestora escolar? Quais são os conhecimentos, habilidades, responsabilidades, compromissos, autonomia e limites desse profissional, que muitas vezes deixa a sala de aula como professor para a assumir a função e seus inúmeros desafios? O programa Klabin Semeando Educação oferece um curso de formação específico para esses profissionais nos territórios onde a empresa atua. Dos 14 municípios que integram o programa em 2021, pelo menos três já tiveram os dois módulos iniciais do curso em anos anteriores. E o resultado tem sido surpreendente.

“Tenho me encantado com os cursos de formação de gestor. Sabe por quê? Ao final do curso, o participante descobre o quanto é potente e capaz. Ele simplesmente se descobre como ‘o cara’ ou ‘a cara’ para estar naquela escola”, avalia o professor Adilson Dalben. Consultor da Interação Urbana, Adilson atualmente desenvolve o terceiro módulo do curso com grupos de gestores de Ortigueira (PR) e Telêmaco Borba (PR), além de ter iniciado o primeiro módulo em Lages (SC) e Reserva (PR).

A pedagoga Rosangela de Souza Bittencourt Lara, também consultora da Interação Urbana no programa, lembra que o curso de formação, além do aprimoramento individual, estimula o  trabalho colaborativo entre as escolas,  fortalecendo o conceito de rede. “O trabalho colaborativo e participativo entre as escolas é uma grande potência do curso: os gestores, além de problematizar algumas práticas, têm oportunidade de confirmar a riqueza de outras experiências que já desenvolvem, e isso é propulsor para ir além, acreditar que você pode fazer coisas diferentes na sua escola. O espaço de formação é muito convidativo nesse sentido”, explica. O curso, rico para formandos e formadores, segundo ela, é incrementado pelas experiências trazidas de fora, que enriquecem o repertório do participante. Rosangela, que passou a atuar no programa em abril de 2021, vem ministrando o módulo I nos municípios de Otacílio Costa (SC), Correa Pinto (SC), Rio Branco do Ivaí (PR) e Imbaú (PR).

Desafios da função

Se o trabalho do gestor escolar é difícil em condições normais, pode-se deduzir que a situação se agravou bastante com a pandemia de Covid-19. Esta tem sido a queixa central dos educadores no momento, devido principalmente à falta de condições tecnológicas para o ensino. Começa pela dificuldade da escola em chegar a todos os alunos. “Alguns municípios têm muita dificuldade em relação a isso. Algumas redes não dispõem de plataformas para videoconferência e nem os próprios alunos dispõem de acesso à internet. As escolas acabam empenhando todos os esforços para que o aluno possa ampliar seus conhecimentos, por meio de apostilas e mensagens pelo WhatsApp. Se necessário, vão à casa do aluno para levar o material”, explica Rosangela. A relação família-escola faz parte desta equação e tem sido um tema recorrente entre os profissionais de ensino.

“Eu até abri no curso uma discussão sobre isso, porque é algo bastante forte. Os gestores tentam buscar uma parceria maior com as famílias para atuar frente a essa realidade de hoje.” (Rosangela de Souza Bittencourt Lara)

A questão da pandemia – sobre a qual os educadores têm pouca ou nenhuma governabilidade, especialmente porque as informações oscilam – reflete e expõe um problema crônico, que é a falta de recursos. Adilson acha pertinente classificar esses recursos em quatro níveis. “O primeiro nível de recurso é o das condições objetivas: recurso material, recurso humano, tempo. Por exemplo, se não existir o professor para dar aula, o processo educacional no âmbito da escola não se inicia. No segundo nível de recursos está o conhecimento. Todo profissional que atua na escola, professor ou não, precisa de conhecimento. Mas, por exemplo, ter o professor, e com conhecimento, não é o suficiente”. Então, temos o terceiro nível de recurso, que é a organização e a organicidade. Preciso planejar e colocar o conhecimento em ação, que é o planejamento. No último nível de recursos está a subjetividade, onde estão os valores pessoais e as diferentes expectativas de cada membro da comunidade escolar. A riqueza da metodologia do curso de formação se encontra no fato de considerar essa diversidade, abrangência e complexidade presente na prática de gestão. A formação dessa natureza, baseada na ação-reflexão-ação é importante, porque muita gente pensa que uma orientação prescritiva para a escola funciona, que basta o professor pegar o livro didático e aplicar. Essa é a crença mais furada que existe”, diz o professor.

É reconhecido que a pandemia trouxe uma série de incertezas. Se antes dela podia-se falar de boas práticas, de experiências bem-sucedidas, agora uma pessoa que aponte um “caminho certo” pode não ser confiável, pois tudo é muito novo, não há experiência e conhecimento acumulado para o enfrentamento de uma pandemia como essa. É preciso construir esse caminho juntos.

De todo modo, Adilson entende que o gestor precisa superar isso. “Que faltam recursos e que há desigualdade social nós sabemos. Dado isso, o que podemos fazer que está dentro da nossa governabilidade? Enquanto nos queixamos, deixamos de pensar e nos colocamos em uma zona de conforto. Devemos sair do papel de vítima para ser um agente do processo. Isso é empoderamento. É claro, sem nunca se esquecer que todos no sistema educacional têm sua responsabilidade. O gestor não resolverá nada sozinho”, defende. Segundo ele, há gestores que dizem “não deu para fazer por causa disso” e há outros que dizem “apesar disso, nós fizemos isso”. “Esse é um indicador para a mudança do discurso.” Rosangela concorda. Para ela, é preciso entender o que está acontecendo, acolher a queixa e ao mesmo tempo olhar para escola e pensar: “Quais são as nossas potencialidades e as nossas fragilidades e o que podemos fazer com isso. Essa é a base para pensar, inclusive, em um plano de ação”.

“Há gestores que dizem ‘não deu para fazer por causa disso’ e há outros que dizem ‘apesar disso, nós fizemos isso’. Esse é um indicador para a mudança do discurso.” (Adilson Dalben)

Gestão democrática

“Hoje buscamos a equidade na sala de aula, mas para conseguirmos isso, a administração também precisa ser equânime. Nem toda escola precisa das mesmas coisas”, diz Adilson. Ele cita a necessidade de internet como exemplo. “Todo mundo precisa de internet, certo? Sabe-se que quase toda escola já tem acesso à internet, porém quantas delas dá acesso aos alunos para finalidade didática?” Ele resume o desafio: “O gestor precisa fazer com que sua comunidade escolar perceba suas potencialidades e fragilidades, para que possa usar a primeira para mitigar a segunda. Cada comunidade escolar tem suas próprias potencialidades e fragilidades, por isso a administração precisa ser equânime”.

Sobre o curso de formação

Diante dos desafios, qual é o objetivo do curso de formação de gestor? O objetivo maior é instrumentalizar e apoiar os gestores na busca de soluções condizentes com as diferentes realidades locais, em um processo colaborativo e permanente de integração e aprimoramento. Isso inclui um plano permanente de formação desses profissionais, que coordenarão a elaboração e a avaliação do Projeto Político Pedagógico (PPP), documento oficial da escola, entre outras medidas transformadoras.

O curso de formação também é um recurso para os gestores fazerem os seus próprios planos de formação baseados na escola. Os módulos I e II mostram como é importante o planejamento e a função de articular a comunidade – articulação que não é uma prática comum na rotina dos gestores. A discussão que se faz é para que os gestores abram um espaço na rotina escolar para pensar a escola. “Se eles não fizerem isso, ninguém irá fazer”, diz Adilson.

Rosangela resume a perspectiva do trabalho na formação baseada na escola. Envolve dispor de conteúdo claro, organizado e atual sobre gestão, planejamento, avaliação e formação de professores. Contudo, não se trata de uma formação prescritiva, como uma palestra. Há uma interação forte com a realidade da escola e suas demandas. “Esse é o grande diferencial do curso. O gestor que sabe ler as necessidades de sua realidade traz essa informação e a partir disso é que vamos discutir o seu papel, como planejar diante de uma situação determinada, como articular um trabalho coletivo dentro da escola”, explica Rosangela. “São temas que brotam da realidade da escola. Por isso, cada grupo caminha em um ritmo, entendendo o processo no seu íntimo. Em dois dos grupos com que atuo, 90% dos diretores acabaram de sair da sala de aula e ingressaram como diretores de escola. É tudo muito novo para eles. É uma reflexão diferente de quando o grupo é mais amadurecido”, acrescenta ela.

É importante lembrar que a formação não ocorre no momento síncrono dos encontros. Começa antes, com a leitura individual do material proposto. “Gosto de ver a leitura como uma obra de arte, que impacta cada um de um jeito”, diz Adilson.  Somente depois da leitura as percepções individuais são objeto da troca entre escolas. O momento síncrono é de compartilhamento de ideias, propostas, experiências. Nele, os gestores percebem que quem está educando são eles mesmos. Adilson destaca que a adaptação do curso (inicialmente idealizado para encontros presenciais) para o formato remoto é modelo para as escolas. “O que fazemos com os gestores, eles podem se inspirar para fazer com os professores e com os pais dos alunos. Essa adaptação do curso, feita sob coordenação da Patrícia (Cândido), foi bastante acertada.”

O material de apoio do curso, escrito por Katsue Hamada e Zenun, é muito acessível e apresenta os temas necessários para discutir a gestão. Reúne conceitos e reflexões importantes sobre planejamento, PPP, formação continuada e gestão democrática. Adilson destaca três pontos das publicações: 1) o PPP é o registro do sonho da escola e de como vamos atingi-lo; 2) o quanto é importante o professor sair do cotidiano e ir para a cotidianidade (a reflexão sobre o cotidiano); 3) a história do sr. Félix: “Eu já sei o que tem de se fazer de novo, só não sei como não fazer do jeito antigo”.

 

Acesse a página MATERIAIS para baixar:

 

Gestão pedagógica em redes municipais de ensino (Módulo I)

 

 

 

Gestão pedagógica em redes municipais de ensino (Módulo II)